Josué estava sentado em sua cadeira antiga. Com um livro aberto em cima da mesa. Lia um romance intragável. Não por ser uma literatura ruim, mas porque era aquele tipo de livro que colocava a realidade diante do leitor, cobstrangendo-o. Incomodando-o.

Aquela sala era decorada com séculos de história. Um relógio do arco da velha, um armário de madeira cheio de buracos, com livros antigos. Eram centenas de livros silenciados. Empoeirados. A parede continha apenas uma pintura desgastada. E os quadros com traços seculares. 

O homem, Josué, não era diferente da decoração. Eu diria até mesmo que ele era uma extensão de sua casa. Ele estava envolvido no ato de ler. Absorvido por aquela história. Nada de mais, uma ficção baseada em fatos reais. Narração de guerras. Lutas, uma batalha que se misturava com a realidade dos guerreiros da história, como também dos leitores de sua nação.

Talvez, para um morador local, que nasceu e viveu sua vida toda naquela cidade, o enredo fizesse algum sentido. Porém, para Josué que é um brasileiro, descendente de libanês, que vive lá há 10 anos, depois de se aposentar no Brasil, talvez para ele esse livro fosse um mistério. Uma grande história de romance realista. 

Já fazia duas horas que ele estava lendo. Era de tarde, uma daquelas tardes corriqueiras sem novidade. De repente, como uma onda de calor que avançava pela cidade de Beirut, onde ele vivia, uma explosão pôde ser ouvida há quilômetros de distância. Mas Josué estava próximo. Primeiro impacto ele se lançou no chão, pelo susto.

Ouvindo, entetranto, o som de vozes e gritos e correria, ele se levantou e correu em direção à janela. Os vizinhos estavam fazendo a mesma coisa. Gritando e conversando com os outros vizinhos. Uma chorava com o que enxergavam. Outra berrava palavras que nem ele, nem os nativos daquele país entendiam. 

Uma fumaça branca alcança os ares, partindo de um dos prédios do centro portuário de Beirut. 
Ouviam-se gritos desses lugares. Desespero. Ranger de dentes. Era uma explosão seguida de estouros menores, como se fossem fogos de artifício. O que se viam eram a fumaça, o incêndio e o estouro.

Josué pegou seu celular, e começou a gravar, começou a transmitir ao vivo. Seus parentes e amigos, que estavam no Brasil, acompanhavam atônitos. Perguntavam a Josué o que tinha acontecido, e ele respondeu o que sabia. Era uma explosão, um incêndio e um barulho ensurdecedor.


Josué tentava explicar, quando de repente uma nova explosão maior ainda aconteceu. E quem estava assistindo ao vivo no celular de Josué, se assustou. A princípio era uma fumaça branca, que subia alto pelos ares, mas essa segunda explosão fora vista por todos. Foi instantâneo. Um cogumelo vermelho surgiu no meio da fumaça branca. E via-se a onda de impacto surgindo do centro da fumaça. Essa onda foi chegando até atingir Josué. Que foi empurrado pelo impacto. 

O seu apartamento simples do centro da cidade estava, relativamente, longe da explosão. Mas o choque da explosão atingiu o apartamento, estilhaçando os vidros dos apartamentos vizinhos, lançando móveis, quadros e livros no chão, derrubando quem estivesse no caminho. 

Como se fosse uma tempestade de estilhaços: um furacão de fogo. Foi uma explosão sem igual. Quem faria uma coisa dessas? Vinha na mente de todos que acompanhavam o vídeo de Josué. E ele? Ele estava bem. O celular ainda estava no chão sem mostrar sinal de Josué.

Era preciso que ele desse as caras e mostrasse que estava bem. Era necessário que lutasse com o peso lançado por cima dele. Era necessário que ele se movesse, se arrastasse até o celular e desse um sinal de vida. E nada por cinco minutos. Cada minuto era uma eternidade. Um minuto era como mil horas. 

Porém, de longe, dava para ouvir um suspiro, um barulho, um grunhido. Um murmurar de sobrevivente. Não sabiam os espectadores da live se esse sussurrar era de gente, ou de coisa, ou de sobrevida. Sabia-se que era de algo querendo manifestar-se. 

Depois de mais cinco minutos, alguém se levantou, no fundo, no meio dos escombros. Ninguém podia imaginar que Josué estava lá na paisagem estilhaçada. Camuflado. Mas era ele, graças a Deus. Com um esforço sobreumano ainda conseguiu pegar o celular, a transmissão estava garantida. Disse a todos que estava bem. Assustado, certamente, mas estava bem.  E todos manifestaram a sua surpresa, seguida de alívio. 

Foi só um susto. Porém, estava tremendo, gaguejando sem entender. Tudo estava revirado em sua casa. Ele olhou para seus móveis, e nada ficou em pé. Foi um “forte impacto” disse ele para todos no celular, depois de abrir os olhos como se fosse um terrível pesadelo. Foi um forte impacto. Repetiu depois de constatar que estava inteiro.

Olhou para si, na tela do celular na transmissão, fingindo mostrar para todos o seu estado, querendo, na verdsde, ver a si mesmo, na tela. Constatou que estava bem, e repetiu pela terceira vez, foi só um forte impacto, “não abalou as estruturas”. Continuou, depois de perceber que janelas estavam despedaçadas, móveis revirados, escombros por todos os lados. Porém, as estruturas intactas. 

Tinha sido uma experiência que saiu do livro que ele estava lendo, e o alcançou na realidade. “O livro”? Lembrou ele. Olhou para o chão procurando algo, gesto que os espectadores estavam tentando decifrar. O que ele estava procurando. Revirou, o que estava revirado. Como um farejador, procurava sua ficção, em meio a toda essa realidade. Procurava o seu refúgio. Nesse meio tempo, encerrou a transmissão, dizendo que estava bem. Desligou o seu celular, dizendo de si para si que queria encerrar a ficção.

Em seguida encontrou o seu tesouro, e seu livro estava inteiro. Ainda aberto na mesma  página, onde ele estava na leitura antes da explosão. Pegou o livro. E votou a ler. No livro, as palavras exatas que ele lia eram: “Foi só um forte impacto de uma explosão no coração da cidade”.