Pela manhã, abri meus olhos. Alguns pensamentos surgiram. Eram lembranças, eram histórias, o passado invadia minha mente. E comecei a confundir as vozes do passado, com as vozes do presente.  Não há mais limites, fronteiras entre o lá e o cá.

Pensei: e as vozes do porvir? Quem as ouvirá? Haverá o futuro? O mundo continuará? Não sobrarão pedras sobre pedra. Uma das vozes me diz. E eu concordei.

Levantei-me com uma tremenda vontade de escrever. E cá estou nesse exercício mental. No meio de uma pandemia de vozes e personagens, ou seria um pandemônio? Começo a esboçar um personagem. Quem será ele? Que nome terá? Para onde irá? Tomo um café para refrescar meus pensamentos, e eles agradecem em uma só voz.

“Daniel”. Esse será o nome do meu personagem. “Professor” será a sua profissão. Dia após dia, na rotina exemplar, ele sai de sua casa, preparando a aula em sua mente, depois de uma noite passando a limpo. Corrigindo exercícios de alunos que não se importam com a sala de aula. Preparando aulas. Sonhando com uma educação melhor.

Ele entra correndo na sala, os alunos já estão em seus lugares. Ele sempre entra com um maleta 007 na mão direita e um monte de papéis soltos no braço esquerdo. Todo atrapalhado.

– Bom dia, classe. – ele se senta na cadeira, e começa a chamada. Nome por nome os alunos respondem. Outros não. Porque nessa hora a confusão era geral. Todos querendo falar ao mesmo tempo. Vozes do presente e vozes do passado vão disputando o espaço, um lugar ao sol.

Daniel está, fisicamente, presente. Mas seu pensamento está no passado. Professor de literatura, gosta de ler, porém não tem tempo para isso. Por isso, repassa todas as leituras que já fizera, em sua mente antes da aula.

Ele estava expondo sobre o autor Graciliano Ramos. Um livro chamado Vidas Secas. Nessa hora, porém, um pensamento vem sua mente. Onde estão os escritores do presente? Eles ainda existem? Cadê as grandes obras do hoje e do aqui? Durante a aula ele se cala, com esse pensamento. Os alunos que estavam todos conversando se calam com o professor.

A princípio, era mais curiosidade do que compaixão. Um professor quando se cala é algo curioso. Os alunos o olhavam com curiosidade. Por que ele estava calado? Por que o silêncio?

Uma lágrima escorreu dos olhos do professor Daniel. E os alunos começaram a se compadecer desse gesto. E se levantaram. Alguns abraçavam o querido professor. Talvez porque achassem que ele estava em uma situação difícil. Talvez a morte de algum parente, talvez uma dívida, ou o fim de um relacionamento, ou desespero, angústia, depressão.

Os alunos estavam em volta do professor, querendo alguma resposta. Choravam com ele. Outros só queriam deixar a aula passar, era um grande acontecimento naquela escola. A notícia se espalhou de sala em sala. Outros alunos e outros professores pararam de fazer o que estavam fazendo e foram se solidarizar com Daniel.

Em pouco tempo, diretor, coordenadores foram lá entender o que estava acontecendo. Todos os agentes da escola estavam naquela sala. Mal cabiam todos. Apertados. Misericordiosos.

Ninguém mais estava olhando para o professor com curiosidade. Desta vez, todos choravam juntos. E aquela pergunta permanecia sem resposta na mente de Daniel. “Onde estão os escritores do presente”? “E se eles estão em silêncio, como teremos os escritores do porvir”?

As vozes do ontem, do hoje e do amanhã estavam todos lá. No lugar que era devido a cada um. Trocando ideias, trocando palavras. E a escola estava inconsolável. Daniel, seus alunos, seus colegas e todas as vozes do mundo.